• 24 de setembro de 2021

A relação da cannabis e o estresse

 A relação da cannabis e o estresse

Arte: Victor Habbick Visions – Science photo library

A cannabis é conhecida por acalmar e relaxar o corpo e a mente. Mas como isso acontece?

Em 2020 a relação da cannabis com o estresse virou tema de pesquisa aqui no Brasil. O comitê de Ética da Universidade de Santa Catariana (UFSC) aprovou em junho um estudo com profissionais da saúde, para entender os efeitos da cannabis no tratamento dos transtornos de humor.

Conduzido pelo pesquisador Erik Amazonas, o estudo buscava 300 voluntários, que seriam avaliados mês a mês depois de usar o óleo de canabidiol (CBD) com baixo teor de (THC).

Ainda não temos um resultado, mas considerando o uso recorrente da cannabis para esta finalidade, a certeza é quase certa.

Entenda o motivo:

Arte: Victor Habbick Visions – Science photo library

Mas o que é estresse?

Primeiro, vamos analisar. O que você entende sobre a definição de estresse?

Segundo o Ministério da Saúde, é uma situação natural do nosso corpo quando vivenciamos uma situação de ameaça ou perigo.

Basicamente, uma reação de adaptação a situações novas, que deixa o organismo em estado de alerta.

No entanto, consequentemente, isso pode causar alterações físicas e emocionais, que podem ser bem ruins.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 90% da população do planeta sofre com estresse.

E o Brasil está no topo do ranking. Segundo um levantamento da Associação Internacional do Controle do Estresse (ISMA, sigla em inglês), já somos o segundo país do mundo com o maior nível de estresse.

A condição pode parecer simples, mas não é. Há até uma data para conscientização. O dia 23 de setembro é o Dia Mundial do Combate ao Estresse.

Ele faz parte do mês do setembro amarelo, sobre a conscientização do suicídio. Isso demonstra que apesar do estresse ser recorrente na vida de todo mundo, é preciso estar atento e cuidar para não desencadear alguma doença.

Você sabia que os estresses podem ser diferentes? Entenda:

Há dois tipos:

  •         Agudo. Ele é curto, porém intenso. Pode ser causado por situações traumáticas que passam com o tempo, como a angústia de perder um ente querido, por exemplo.
  •         Crônico. Este é mais comum e atinge a maioria das pessoas no dia a dia. Contudo, é mais leve que o primeiro.

O Ministério da Saúde ainda alerta que há três fases do estresse que podem causar as mais variadas consequências.

  • Fase 1. Alerta: É quando a pessoa começa a ficar impaciente. Aqui, as reações podem variar de suor, pés e mãos frias, boca seca, dor no estômago, diarreia passageira, insônia, batimentos acelerados, agitação, respiração ofegante, aumento súbito da pressão e tensões musculares, que podem causar dores nos ombros e nas mandíbulas.
  • Fase 2. Resistência: É aqui que você percebe que é hora de manter a calma. O corpo tenta voltar ao normal então se adapta ao problema ou o elimina de vez.
  • Contudo, isso ainda pode causar alguns sintomas, como mal estar generalizado, formigamento nas mãos e nos pés, problemas de memória, sensação de desgaste físico, pequenos problemas na pele, cansaço, hipertensão arterial, sensibilidade emocional em excesso, tontura, gastrite, falta de desejo sexual, obsessão com o motivo do estresse e principalmente irritação excessiva.
  • Fase 3. Exaustão. Aqui as reações no organismo foram tão intensas, que começam a ocasionar problemas de saúde.

Além dos sintomas apresentados na fase 2, também é possível que apareça tiques nervosos, hipertensão arterial confirmada, mudanças de pele maiores, úlcera, pesadelos, cansaço excessivo, apatia, angústia, perda do humor e até uma incapacidade no trabalho.

Controle do estresse

Agora que sabemos que o estresse pode trazer consequências sérias, é preciso destacar que, apesar de passar por situações que geram a condição, é possível amenizar os sintomas.

Para reabastecer as vitaminas e nutrientes do corpo perdidos pelo estresse, o Ministério da Saúde recomenda uma alimentação saudável, que envolve bastante verduras e frutas ricas em vitaminas do complexo B, vitamina C, magnésio e manganês.

Apesar do cansaço causado pelo estresse, praticar alguma atividade física pode ser fundamental para restabelecer o funcionamento normal do organismo.

A partir da queima de calorias é possível obter benefícios para melhorar as funções respiratórias e cardiovasculares.

Além disso, o exercício também proporciona uma sensação de bem estar, causado pela liberação de substâncias relaxantes como a endorfina.

Cannabis para estresse

Agora chegamos ao ponto que todos queriam saber, como a cannabis pode ajudar a reduzir o estresse.

Sem dúvidas esta é uma das principais justificativas para o uso da maconha no mundo, relaxar e diminuir o estresse.

Um estudo apontou dados da literatura, que mostram que 72% das pessoas procuram a cannabis para relaxar e aliviar a tensão.

A droga mais usada no planeta todo está atrás somente do álcool e do tabaco, é conhecida principalmente por causa dos seus efeitos relaxantes que ajudam a dormir e controlar o estresse.

Principalmente durante a pandemia. Profissionais da área e até pesquisas ao redor do mundo tem mostrado que o uso da cannabis aumentou e muito durante a quarentena.

E os motivos são os mesmos, diminuir a ansiedade e conseguir ter uma noite de sono, visto a situação incerta da pandemia de coronavírus.

Hoje em dia, há até cepas (strains) indicadas para o estresse. Elas ajudam a aliviar os sintomas na hora, causando uma sensação de bem estar.

Medicinal X Recreativo

Contudo é importante ressaltar que há diferenças entre o uso da cannabis voltado para tratamentos e o uso adulto, pelo menos em longo prazo.

Um estudo estadunidense realizado na Washington State University, por exemplo, analisou pessoas que utilizam a cannabis com concentrações de canabinoides diferentes para entender os efeitos.

A conclusão foi a de que o cigarro da maconha, apesar de reduzir consideravelmente o estresse em um curto período, também pode piorar os sintomas em longo prazo, principalmente se a pessoa tiver depressão.

Contudo um tratamento controlado até com o THC direcionado por um médico pode ser de grande ajuda.

Mas como isso acontece?

A cannabis possui os chamados canabinoides, pequenas moléculas que podem interagir com o nosso corpo.

Isso porque o nosso organismo também produz canabinoides, que servem para equilibrar várias funções do organismo.

Através do Sistema Endocanabinoide eles podem ativar receptores pelo corpo todo, que permitem regular funções como fome, humor, sono, sistema imunológico e até o sistema nervoso.

Os canabinoides da planta servem como uma espécie de reforço, administrando a mesma função.

Uma das principais razões para a sua efetividade é porque a cannabis interage nos receptores localizados na musculatura. Isso influencia alguns dos nossos também, como a anandamida.

Como isso pode ajudar a diminuir o estresse?

Um dos canabinoides da cannabis mais conhecidos, o canabidiol, pode servir como um potente relaxante, tanto muscular quanto para a mente.

Ele também é conhecido como um ansiolítico e é um potente aliado para combater a insônia.

Design: Maya Chastain

O óleo de CBD tem a capacidade de influenciar a velocidade dos mensageiros químicos que são liberados quando há alguma dor, além de aumentar o fornecimento de canabinoides produzidos pelo próprio organismo.

Outro dos benefícios da cannabis para o estresse é o fato de que a planta possui poucos efeitos colaterais. Há pessoas que não sentem nenhum efeito.

Isso porque, como dissemos acima, ela interage com o corpo humano de forma bem natural. Por isso, os efeitos podem incluir diarreia, náuseas, vômitos e sonolência.

Efeito entourage

Contudo eles podem variar também a partir da interação com outras medicações, ou até a quantidade de substâncias da planta interagindo.

Isso quer dizer que um CBD isolado, por exemplo, pode ter mais efeitos adversos que junto com outros canabinoides e até outros elementos contidos na planta.

No estudo citado lá em cima, da Washington State University, por exemplo, também mostrou que altas doses do canabidiol junto com o THC trouxeram efetividade contra o estresse e ansiedade.

Pesquisas

Se você ainda é cético quanto ao uso da cannabis para ajudar a aliviar o estresse, vamos te apresentar alguns estudos que podem te ajudar na compreensão.

Uma pesquisa feita em 2015, por exemplo, mostrou que a cannabis é eficaz não só para o estresse, mas também para outras condições, como ansiedade, síndrome do pânico, estresse pós-traumático e até para TOC.

Alguns cientistas também mostraram que a planta pode substituir remédios tradicionais, como o brasileiro Antônio Zuardi, pesquisador da Universidade de São Paulo (USP).

Em seu artigo ele diz que a planta pode bloquear os efeitos negativos do THC, que incluem a ansiedade.

Em outra pesquisa ele descobriu que após administrações repetidas o CBD gera um efeito antiestresse.

No seu estudo publicado em 2018 ele diz que a substância afetou o comportamento, amenizando os sintomas do estresse crônico.

No ano passado, pesquisadores da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, testaram o uso da cannabis em ratos.

Fêmeas e machos inalaram a cannabis durante 30 dias e no final, o estresse de ambos estava mais baixo, mas a reação causada nas fêmeas fora ainda mais efetiva.

 O que despertou a curiosidade sobre a diferença entre o uso crônico da cannabis entre homens e mulheres.

Os cientistas também descobriram que curiosamente, quanto menor era a dose da cannabis, mais efeito tinha.

Tainara Cavalcante

Tainara Cavalcante

Jornalista e produtora de conteúdo no Cannalize. Amante de literatura, fotografia e conteúdo de qualidade.

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